Álbum: thank u, next – Ariana Grande

Apenas seis meses após seu último álbum, Sweetener, a cantora Ariana Grande lançou seu novo trabalho: thank u, next. Assim como o antecessor, ele nasceu após alguns acontecimentos traumáticos na vida da artista. Ela até declarou em uma entrevista que produzir este disco “meio que salvou a minha vida“. O trabalho é novamente uma mistura dos gêneros pop, R&B e hip-hop, e a identidade visual é semelhante ao seu álbum de 2018, como a fotografia de cabeça pra baixo na capa, e os títulos em letras minúsculas.

Uma batida trap dá início a primeira música, “imagine”, algo que Grande já introduziu em sua sonoridade anteriormente, e que vai praticamente guiar o resto do disco. A ótima “needy” surpreende com uma base sonora meio distorcida, sendo a música que mais se destaca justamente por ser tão diferente das outras, e na sequência a cantora canta sobre precisar de espaço em uma relação, na irônica “NASA”.

Foto: Craig McDean

Não quero você na minha linhagem sanguínea, apenas quero me divertir” diz o refrão de “bloodline”, uma canção animada que possui muitos instrumentos de sopro e uma leve influência do reggae. “fake smile” é melancólica e dolorosamente sincera, e onde ela claramente fala sobre como foram os seus últimos meses, em trechos como “alguém pode me acompanhar até o carro? se eu for sozinha, não chegarei muito longe“. A provocativa “bad idea” é boa, mas a cereja do bolo está no final dela, com uma batida que não passa despercebida por ninguém.

A curta “make up” não é uma canção memorável, mas o mesmo não podemos dizer de “ghostin”, uma bela e triste balada sobre o seu falecido ex-namorado, o rapper Mac Miller. Após “in my head”, a mais esquecível de todas, vem uma das melhores do disco: “7 rings”. Com uma letra ostentativa (“eu vejo, eu gosto, eu quero, eu tenho“), Ariana faz sua maior aproximação com o hip-hop ao de fato cantar um rap. Na faixa-título, que foi também o primeiro single, a cantora dá um recado aos seus ex-namorados e ainda levanta um discurso de empoderamento, e o álbum fecha muito bem com a divertida e provocativa “break up with your girlfriend, i’m bored”.

O quinto trabalho de estúdio da norte-americana, além de superar as expectativas, veio para mostrar porque ela é uma das artistas da música mais relevantes da sua geração, e mais uma vez reafirmar todo o seu talento.

4,5/5

Álbum: Kerplunk! – Green Day

Foto: Catherine McGann

O trio californiano Green Day lançou seu segundo álbum de estúdio no dia 17 de dezembro de 1991. O disco tem uma sonoridade simples, mas não por isso é de baixo nível. Com músicas punk de três acordes, uma gravação mais crua, e letras que relatam bem a então juventude vivida pelos três integrantes, no alto dos seus vinte anos; em especial Billie Joe Armstrong, o vocalista, guitarrista e principal letrista, podendo assim também ser considerado o líder da banda. Kerplunk! é também o primeiro trabalho que conta com o alemão Tré Cool na bateria, posição que ocupa até hoje no grupo.

O disco abre com “2000 Light Years Away”, uma pegajosa canção escrita para a então namorada (hoje esposa) de Armstrong, Adrienne. Ela é novamente o tema mais adiante, em “80” cujo título faz alusão ao seu apelido (Adie). “Querida mãe, você pode me ouvir choramingar?“; assim começa a clássica “Welcome To Paradise”, música com uma ótima linha de baixo de Mike Dirnt, e que fez bastante sucesso com a sua regravação para o álbum seguinte, Dookie.

Foto: Murray Bowles

O tédio e a angústia juvenil são abordados em canções como “Christie Road” e na balada “No One Knows”; e a divertida “Dominated Love Slave” tem uma pegada meio country que ficou ainda melhor na voz anasalada de Tré, que foi quem a compôs. Há ainda referência ao livro O Apanhador No Campo De Centeio em “Who Wrote Holden Caulfield?”. A versão original, em vinil, contém 12 faixas, mas as versões em CD, cassete e digital possuem quatro faixas bônus. Elas fazem parte do EP Sweet Children lançado em 1990, tendo portanto o antigo baterista tocando nestas músicas: John ‘Al Sobrante’ Kiffmeyer, que também foi responsável pela produção do Kerplunk!. A ótima cover de “My Generation”, do The Who, é que fecha o álbum.

O trabalho que antecedeu o grande sucesso do Green Day é repleto de canções rápidas, furiosas, divertidas e descompromissadas. São só três amigos fazendo um som maneiro na garagem de alguém. O que mais chama atenção é a qualidade das letras de Billie Joe, que já mostrava seu talento com a composição. Se você gosta de música punk, dos anos 90, e se interessa em conhecer mais da banda além dos grandes hits, vale muito a pena escutá-lo.

3,5/5

Álbum: Anthem of the Peaceful Army – Greta Van Fleet

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Jake, Josh, Danny e Sam. Foto: Travis Shinn.

Após dois EPs, os norte-americanos finalmente lançaram seu álbum de estreia, Anthem of the Peaceful Army, no dia 19 de outubro deste ano. A banda, que ficou mais conhecida pelas insistentes comparações com o Led Zeppelin do que qualquer outra coisa, é formada por quatro jovens, com seus vinte e poucos anos, sendo eles os irmãos Josh, Jake e Sam Kizska, e Danny Wagner.

Mas de fato, a comparação com a banda clássica da década de 70 é inevitável. A sonoridade, o timbre de voz do vocalista Josh, e até o estilo visual deles é claramente influenciado. E por isso, muitos desmerecem-os, chamando-os de cópia, e alegando falta de originalidade. Independente disso, as músicas do Greta Van Fleet são sim muito boas, e merecem ser escutadas.

O disco abre com a bela “Age Of Man”, que começa tímida e depois eleva o volume, levando para um refrão quase épico. O primeiro sigle, “When The Curtain Falls”, tem uma atmosfera mais animada e divertida, com uma letra mais descompromissada. “Watching Over” é a que mais podemos ouvir o potencial vocal do cantor, ao final da canção. E uma das melhores do álbum é com certeza “Lover, Leaver”, que inclusive ganhou uma outra versão, mais comprida, na versão digital do disco.

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Durante apresentação no programa The Tonight Show Starring Jimmy Fallon.

As letras mais românticas estão em “You’re The One”, “Mountain Of The Sun” e “The New Day”, que possui trechos muito bonitos: “O amor não é ganância, é uma necessidade que não é dita/O amor não sai quando você desaparece/A dor não é vã se isso significa que seu coração está quebrado/A dor é o mesmo que um meio para curar“. Uma mensagem que está presente na maioria das músicas, é a de liberdade, verdade, paz e tolerância, não à toa o nome do álbum significa “hino do exército da paz”. Essa mensagem está ainda mais explícita na última faixa, “Anthem”, na qual ele canta versos como “Tantas pessoas pensando de maneiras diferentes, você diz/Onde está a música?/Uma melodia para libertar a alma/Uma simples letra, para nos unirmos todos, sabe“.

Não há uma música deste álbum que achei inferior, todas são dignas ou ótimas. A banda de Michigan pode não ter o som mais original, mas é talentosíssima, e uma das revelações do rock desta década. E pensa bem, se eles estão fazendo sucesso entre os mais jovens, estes provavelmente vão se interessar em escutar as bandas de rock clássico. A meu ver, eles estão fazendo um excelente trabalho.

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4/5

Álbum: No Shame – Lily Allen (2018)

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A arte é algo muito subjetivo e, na maioria das vezes, a obra é um reflexo de tudo o que o artista vive e sente. No caso do No Shame, quarto álbum de estúdio da cantora inglesa Lily Allen, é exatamente isso que acontece. A obra é repleta de letras confessionais e íntimas sobre sobre acontecimentos da vida de Allen dos últimos anos, entre eles maternidade, um disco malsucedido, divórcio, perseguição da mídia e abuso de substâncias, só para citar alguns.

Com uma sonoridade pop embalada pela voz suave da cantora, e seus ocasionais falsetes, o disco abre com “Come On Then”, onde ela fala sobre as pessoas que sempre estão arrumando um motivo para criticá-la e diz em um trecho “Sim, sou uma mãe ruim, sou uma esposa ruim. Você viu nas redes sociais.” “Trigger Bangs“, que tem participação do rapper Giggs, e foi também o primeiro single do álbum, é uma canção com uma melodia bem agradável, em que canta sobre andar com pessoas erradas e em como isso a fazia se afundar ainda mais nas drogas.

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Nunca pensei que seríamos esse casal, fugi ao primeiro sinal de problema” canta em “What You Waiting For”, música em que admite seus erros em seu antigo casamento. “Your Choice”, parceria com Burna Boy, traz uma batida reggae, gênero que está presente também em outras músicas do álbum, como “Waste”. A partir da sétima faixa, há o que considero o ponto alto da obra, uma sequência de quatro baladas extremamente verdadeiras, tristes e belas.

Em “Family Man” e “Apples”, Lily Allen coloca para fora tudo o que estava guardado sobre o relacionamento com o ex-marido. Em um trecho ela canta “eu tive que fazer isso, querido, nós dois estávamos deprimidos“. “Three” é uma linda música embalada ao piano, que ela escreveu pelo ponto de vista de seus filhos, já “Everything To Feel Something” fala sobre novamente sobre abuso de substâncias e sobre solidão. O final termina de uma forma mais otimista, com uma mensagem motivacional em “Cake”.

No Shame é um dos melhores trabalhos da cantora, assim como o mais pessoal e sincero, o que só contribuiu para o resultado final positivo. Como diz o título do disco, ela conta detalhes da sua vida sem vergonha alguma, e em uma entrevista à NME, declarou: “As pessoas têm tentado arduamente revelar os detalhes mais íntimos da minha vida sem permissão. Então, talvez esta seja eu apropriando-me da minha narrativa e apresentando-a em forma musical”. E que narrativa.

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4,5/5

Música: Sweetener – Ariana Grande

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Depois de um 2017 difícil, a estadunidense Ariana Grande lançou no dia 17 de agosto o seu quarto álbum de estúdio, chamado Sweetener. Ela explicou em algumas entrevistas o significado do título, dizendo que serve como uma mensagem para transformar uma situação ruim em algo melhor. O ataque de Manchester, que aconteceu em um show seu, é sutilmente lembrado na última faixa que tem a duração de 5:22, fazendo referência à data do acontecido.

A mensagem de positividade pode ser ouvida através do disco em músicas como “The Light Is Coming“, mais uma ótima parceria da cantora com Nicki Minaj, “Breathin”, que fala sobre continuar apesar das dificuldades, e “No Tears Left To Cry” o primeiro single e também uma das melhores canções do álbum.

Com nomes como Max Martin e Pharrell Williams na produção, o pop e o R&B continuam presentes em suas canções, mas aqui ela também trabalha com o hip-hop, que está presente em canções como “God Is A Woman“, que ganhou um videoclipe incrível; “Everytime”, que fala sobre voltar sempre para uma pessoa específica; e a faixa-título “Sweetener”.

O novo trabalho de Grande tem poucas ótimas músicas, como os três singles, o encerramento embalado ao piano “Get Well Soon”, e a já citada “Breathin”; outras que são esquecíveis (“R.E.M.” e “Borderline”, parceria com a rapper Missy Elliott) e até chatas, como “Blazed”, que tem participação de Pharrell, e “Succesful”. Letras sem graça e melodias que simplesmente não empolgam ou causam nenhum tipo de sentimento é o que mais tem aqui. Talvez o fato de ela também está cantando de uma forma mais contida na maioria do disco, sem mostrar tanto o potencial da sua voz (que é incrível) também tenha influenciado no resultado final, que não me agradou muito. Escute só as músicas boas citadas e deixe as outras para lá.

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Música: High As Hope – Florence + The Machine

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O quarto álbum de estúdio da banda inglesa Florence + The Machine, lançado em 29 de junho, mantém o clima quase religioso característico da banda mas de uma forma mais intimista. A vocalista Florence Welch, com sua voz marcante, canta canções sobre mágoas, traumas e inspirações, com o piano, o baixo e a bateria como instrumentos predominantes na maioria das músicas.

A faixa de abertura “June” fala sobre o uso de entorpecentes. Em um verso, ela canta “Eu ouço seu coração batendo em seu peito, o mundo diminui até que não sobra nada“. Este disco, inclusive, foi o primeiro em que a cantora gravou totalmente sóbria, o que reflete nas suas letras mais pessoais. “Me tornei mais vulnerável e fui um passo adiante da metáfora. Isso criou uma criatividade corajosa. Eu pensei, ‘Está tudo bem se eu me mostrar’.”, disse ela em uma entrevista ao The New York Times.

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Outro assunto difícil abordado é o distúrbio alimentar que Florence enfrentou na adolescência, relatado na faixa “Hunger“. A sua adolescência é revivida novamente, dessa vez de uma perspectiva mais otimista, na nostálgica “South London Forever”. Em seguida vem a ótima “Big God“, que ganhou um videoclipe belíssimo; e a melancólica “Sky Full Of Song“, o primeiro single promovido.

Em “Grace” ela pede perdão a sua irmã pelo comportamento dela no passado, quando ela estava alcoolizada. “Me desculpe, eu arruinei seu aniversário que você completou 18 anos, e o sol apareceu, e eu estava me comportando de maneira estranha“, canta. “Patricia”, uma das minhas favoritas do disco, é uma homenagem a Patti Smith, a quem ela admira muito. A atmosfera religiosa está bem presente em “100 Years”, e já na emocionante “The End Of Love” ela fala sobre uma tragédia ocorrida em sua família, o suicídio da sua avó. A bela balada “No Choir” encerra o álbum.

High As Hope, apesar de ter temas tão pesados, não é uma obra triste, mas sim esperançosa. É como se aqui Florence tivesse exorcizado seus demônios e ficado em paz consigo mesma. Fica aqui meus parabéns à essa banda que tem, até agora, uma ótima discografia, onde todos os trabalhos são acima da média. Que continuem assim.

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